Na arquibancada



 Não costumo citar autores com os quais não compartilho as idéias em meus textos, só cito meus queridinhos, rá, rá, rá, mas, só desta vez pretendo eu, vou comentar uma fala do escritor português José Saramago.

No documentário "Janela da Alma", que versa sobre as questões do olhar, o escritor e prêmio Nobel de literatura contou que ia a um teatro que tinha uma espécie de cúpula muito bonita vista de baixo. Mas um dia ele resolveu sentar na parte superior do teatro de modo que via a cúpula de outro ângulo e daquele a mesma era suja, feia e cheia de teias de aranha. Após contar tal história, Saramago comenta que não se pode dizer que se conhece algo até dar a volta toda.  Imagino que isso sirva também para pessoas.

Tudo bem que uma coisa assim dita pelo Nobel de Literatura tenha impacto, mas o que ele disse é  sabedoria   popular.  Quem nunca ouviu  ditos como : é na dificuldade ou crise   que se conhece os  verdadeiros amigos, ou  outra  bem antiga, por fora bela viola, por dentro pão bolorento, ou  ainda,  fulano ou fulana era só  verniz . Penso nestes ditados como uma metáfora da volta inteira sobre as coisas.

O fato é que não precisamos ir longe para saltar aos olhos nossas incongruências inconfessáveis nesse admirável mundo novo!  Jovens s revolucionários de outrora são os velhos no poder hoje e, claro que com um bocadinho de “amnésia”. Pessoas que defenderam a justiça por um bom tempo e, na hora h, afinaram.
Que abismo entre teoria e prática! Talvez seja exatamente por isso que existam estes dois termos, para demarcar bem a diferença entre eles. 

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Cactos



Era uma calorenta tarde como de costume em nossa bela Iguaçu, o  sol já estava em seu último tom antes de se recolher. Passava eu  por uma rua de um  bairro central da cidade  quando parei o carro aos solavancos, quase não acreditei no que via, mais parecia uma miragem. Cactos? Disse eu para mim mesma, apesar de estar acompanhada por mais duas pessoas.

Parei o carro longe do meio fio o suficiente para levar uma multa de trânsito. Larguei a porta aberta e como que atraída me dirigi para um portão onde uma placa dizia  “Recanto dos Cactos”. Nossa! Que paisagem é essa, como eu nunca tinha visto antes?

Ao entrar por uma passarela, em  meio a 1600 espécies diferente de cactos veio ao meu encontro uma senhora, a  dona Marlene, idealizadora do recanto acompanhada por dois pássaros tesourinha  que voavam a seu lado  como que dando tesouradas  em seu cabelo.  Surreal!

A simpática anfitriã nos recebeu com um abraço e  logo nos contou a história de como surgiu o cactário. Disse que ela tinha sonhado  anos antes com o local tal como  ele é hoje. Logo vi que aquilo só poderia ser algo de sonho . 

Naquele curto período que fiquei no local vi uma beleza que dói em flores delicadas e espinhos contundentes,  principalmente se esbarrarmos neles   que são o sistema de defesa das espécies.   Os  espinhos também são belos !

Então o sol se pôs e eu tive que partir. No dia seguinte voltei e levei comigo alguém que eu queria mostrar algo  especial  . Queria levá-lo  sem enxergar .   Imaginei que quando lá chegássemos  ele abriria os olhos  e teria uma estranha sensação. Mas ele não topou a brincadeira de ir de olhos vendados .

Voltei lá mais duas vezes. Gostei da história da dona Marlene, que ouvi  em três ocasiões distintas sem,  no entanto,  perder a essência.

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Lagartear




Quando se chega ao Parque  Nacional do Iguaçu é inevitável que as Cataratas sejam o centro das atenções. Mas eu sempre gostei de ver aqueles bichinhos, insetos, as borboletas, joaninhas e lagartos que apelidei carinhosamente de mini fauna, transitando quase invisíveis sob o sol, diante do espetáculo maior das águas.

Essas figurinhas espertas, pertencentes àquele sistema ecológico, assim como toda a flora,  são a diversidade que garante o eqüilíbrio do todo. Que poético isso, não? É a mãe natureza dando suas lições de paciência e humildade apesar da força que tem. Demorei um bocado até percebê-los, mas  com um pouco de observação ficamos amigos e, sempre que vou ao Parque, procuro por eles para saudá-los e buscar por uma foto.

É interessante  como temos a tendência de ver o espetacular  em detrimento do pequeno e,  como perdemos os detalhes por  isso!

Aqui, um parênteses. Na experiência que tive com cegos, ao desenvolver oficina com eles, senti que apesar de perderem esse maravilhoso espetáculo da visão, os portadores de deficiência visual desfrutam bem mais do que lhe é permitido com os  outros sentidos. E que bom que deve ser gostar de alguém sem se importar com a aparência. Ainda que sempre tenha alguém que fale para quem não enxerga que fulano ou fulana é feio ou bonito, levando em conta apenas a plástica.

Mas, voltemos aos fofos alvos dessa crônica. Fica o convite para quando o leitor for ao Parque Nacional do Iguaçu querendo ver as Cataratas, que procure ver também os  detalhes. Por certo descobrirá a vida em miniatura colaborando com a grandeza da Obra.   E, claro, procure só com o olhar, não os capture. Admire-os. Enxergue e registre.

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Quantidade




 Fim de ano! Tempo das apresentações escolares, formaturas, confraternizações e, inevitavelmente muitos clics fotográficos. É impressionante como a tecnologia digital democratizou a fotografia. Antigamente ser fotógrafo era só para meia dúzia de “iluminados” que tinham equipamento e conhecimento do métier.  Agora quem menos se espera tem uma camereta e é um fotógrafo em potencial.

As mães eram até bem pouco tempo as melhores clientes, compravam fotos dos seus pimpolhos até de olho fechado. Tinha até uma tática onde alguns fotógrafos ofereciam para tirar uma foto de graça das crianças. Os fotógrafos tiravam um monte de fotos e, é claro, as mães compravam todas. Pois elas agora viraram concorrentes. Elas mesmas fotografam seus anjos do jeito que bem querem. E eles agradecem, afinal, é bem melhor sorrir para a mamãe.

É, os tempos mudaram mesmo! Outro dia fui fotografar um evento e me assustei ao ver que quase metade dos presentes de uma platéia de duas mil pessoas também fotografava. Foi chocante e revelador ao mesmo tempo ver aquele batalhão de fotógrafos de ocasião! O fotógrafo profissional não reina mais absoluto. 

 E, para nós, profissionais, só há desvantagem nisso . Além do reflexo no bolso, ainda os fotógrafos de ocasião atrapalham, ficando na nossa frente na hora do clic. A gente odeia isso. Mesmo que isso seja uma coisa que sempre fizemos com o público, obrigando-o a assistir muitas vezes as nossas cabeças, agora chiamos quando os de ocasião fazem o mesmo. Chamo isso de hora da revanche. É ruim, mas faz parte.
A tecnologia tem dessas coisas e num exercício de urbanidade deveríamos encontrar uma melhor e mais educada forma de conviver. Apesar de que não seja isso que se vê por aí e é mais comum do que se imagina volta e meia alguns se estapearem por espaço .

 Definitivamente, a pressa e o movimento frenético de nosso tempo não anda produzindo grande coisa na área fotográfica, apesar da oferta. Sobram tecnologia e mão de obra, faltam talento e inspiração. Ah, inspiração! Que palavra mais linda! Pena que não se pode comprar na padaria, senão eu ia pedir um montão para eu não precisar atrasar mais a entrega dessa crônica, que era para ser semanal, por falta de sua graça.

 Isso tudo só vem reforçar que a boa fotografia continua sendo reflexo da qualidade do olho humano.  Em uma sociedade cada vez mais com os olhares em série, fotógrafos como Henry Cartier Bresson, Robert Capa, Diane Arbus, continuam sem similar.

 Mas nem tudo está perdido. Sempre estará acontecendo algo invulgar capaz de inspirar. basta ter olhos para ver (essa é a parte difícil) como no caso do garotinho da foto, que durante um espetáculo de fim de ano de sua escolinha, parou para amarrar seus meigos sapatinhos e quando terminou de fazê-lo, o espetáculo já tinha terminado. No entanto, ele tinha feito um espetáculo à parte. Amarrou os sapatos com a calma e o capricho de um pequeno Buda, foi demais!  Só as crianças são capazes de algo assim!

 O Bailarino e coreógrafo russo Nijinski, em uma passagem de sua carreira, ficou um longo tempo no palco até começar sua apresentação. Quando a platéia começou a demonstrar sinais de impaciência, ele disse que não era uma máquina, estava aguardando a inspiração.  Em seguida voou no palco, como ninguém fizera antes, levando a platéia ao delírio.

 Salve, salve a Arte Verdadeira!

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Nada do que foi sera...



 Nesse mundo de incertezas, até as nossas certezas  precisam passar por uma  reciclagem  de tempo em tempo.

  Recentemente fotografei o ensaio da peça teatral "Invisível" , da Cia Foz de Teatro, e, depois, a estréia. Confesso que achei que seria mais fácil,  pois já conhecia todo o mis-en scéne,  ou pelo menos pensei que conhecesse. Porém,  me deparei com algumas surpresas.

  Para começar, no ensaio, além do elenco, tinha apenas eu e mais umas três  pessoas. Na peça, tinham centenas de olhares cravados nas atrizes. Imagino que cada um tem um jeito de encarar o público. Alguns escolhem uma  pessoa  na platéia e olham só para ela até o final, a menos que  ela tenha  um mal súbito.  Já, outros, preferem se comunicar visualmente com todos de uma vez, no estilo olhar para todos e não olhar para ninguém. Ou, ir deslocando o olhar para cada um de cada vez. . Porém, independente da forma que escolhemos para interagir e sobreviver, seja  em que palco for, a certeza é que as coisas mudam o tempo todo.  

  No ensaio, eu podia me locomover como quisesse. Na estréia, nenhum assento  vago. Cheguei atrasada e não pude reservar lugar estratégico. Fiquei  agachada em um limitado espaço por quase uma  hora, para não atrapalhar a visão da platéia. Um  conhecido até elogiou a minha resistência física. Mas, com   minha mania de ler tudo nas entrelinhas,  interpretei que  ele estivesse querendo dizer – “você está muito bem para quem passou dos 40”. No clima da fantasia, ouvi até uma risada virtual.

  Já faz algum tempo que aprendi que a fotografia é sempre o que passou. Cada instante que fotografamos morre , e seu fragmento é  transferido para a bidimensionalidade  de um suporte qualquer para ser visto depois, se assim o quisermos. Cada instante que vivemos, morre, podendo ficar limitadamente na nossa memória, até o completo esquecimento. Não é por acaso que a arte imita a vida, ainda que o seu contrário também possa acontecer, dependendo do nosso anseio de transformação.

  Poderemos fazer quantas cópias quisermos de uma fotografia, mas o instante original é único. Poderemos fazer mil cópias de um filme, porém tudo será rigorosamente igual em cada cópia.
No  teatro, o momento continua sendo único, pois assim é o tempo, é a vida. A diferença, como arte,  é que não se pode reproduzi-lo, assim como fazemos com a fotografia. Ainda que, fantasia, não se pode tirá-lo da realidade e transferi-lo para o papel. Um  fragmento seria irrisório para representá-lo na sua integridade. Pois está ancorado em uma realidade que inclui tudo: palco, cenário, atores, público, som, luz e texto. E não se pode apartá-los. Portanto, deve ser vivido no aqui e agora.

  Mas, o que  buscamos ao representar, seja em qual arte for? A vida, por suposto! Ainda que falemos da morte é a vida que queremos  deter, refazer, sublinhar,  mexer.  Numa   tentativa de disfarçar a  certeza de nossa impermanência. Salve. Salve-me!

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Salve, Salve Maria!



 Quem nunca presenciou uma cena que gostaria de ter fotografado e não deu? Outro dia um colega descreveu uma cena rara e logo em seguida tascou um “pena que não deu tempo para fotografar”. Ah! O tempo, sempre caprichoso! Presumo que essas imagens que lamentamos não ter fotografado seriam  belas imagens.

 Tem também aquelas fotos que gostaríamos de não ter feito. Como é o caso do fotógrafo sudanês Kevin Carter que ganhou o premio Pulitzer de fotografia com uma imagem de uma criança esquelética pela fome tendo um abutre ao fundo espreitando sua morte. A criança morreu, Kevin suicidou-se quatro meses depois. “Se” ele tivesse observado algo que é mais importante e vem antes de tudo, ele teria tido melhor sorte. Um doce para quem adivinhar o que vem antes de tudo. Começa com a letra V, assim mesmo em maiúsculo.  Quem acertou é só pensar no doce na próxima vez que for respirar.

 Um dia eu presenciei uma cena que me fez pensar mais do que todas as cenas tristes e chocantes que assisti no front jornalístico. Uma menina entrou saltitante na casa onde eu morava para buscar um gatinho que tinha sido abandonado no quintal. Eram dois minúsculos gatos brancos, um era menor que o outro e Maria (nome verdadeiro dela) precisava escolher um deles. Ela escolheu o mais flaquito, a contra gosto dos adultos presentes que tentaram persuadi-la a pegar o maior. Mas a menina não fez caso e saiu feliz da vida com o animal agarrado em sua blusa.

 A cena protagonizada por Maria é desconcertante em um modelo onde se quer levar vantagem em tudo, mas extremamente poética e inspiradora para quem teve a oportunidade de presenciá-la.  Digna de uma foto! Os teóricos da fotografia, principalmente os mais humanistas afirmam que devemos abrir um espaço poético nas imagens para que elas possam emocionar e provocar reflexão nos expectadores. Eu concordo, vi isso com meus olhos, não pude registrar, mas confirmo que vi.
Salve, salve Maria!

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Cronica Visual






 É fim de tarde! Vejo uma cena que mais parecia de um outro tempo, de tão real. Três cavalheiros conversam no centro da cidade, dois deles usam bengalas, mesmo não aparentando problemas de mobilidade. Parei o carro, criei coragem de me aproximar e pedir para tirar uma foto, não podia perder aquela cena. Eles aceitaram, mas um deles pediu para me fotografar também e sacou do bolso sua câmera digital. Fiquei surpresa com o pedido, em meus 20 anos de fotografia, raras pessoas me pediram isso . E assim foi, registrei e fui registrada.
  Lembrei do Fabrício Azambuja, um repórter fotográfico que passou pela imprensa da cidade.
  Um dia ele me tascou uma desconcertante: Vivemos da imagem das pessoas que fotografamos, disse ele: o que damos em troca? Respondi que dávamos a visibilidade dos dramas deles.
  A isso, ele respondeu sem falar, apenas com um sorriso maroto, ainda menino.
  Acho que hoje compreendo melhor aquele sorriso. Ele me dizia que sempre poderemos fazer algo para compensar a gentileza recebida, cabe a cada um descobrir como. Compartilhar parece bom, mostrou-me um dos gentis cavalheiros. Enquanto não descobrimos nada melhor
para reverenciar e agradecer as pessoas que graciosamente fotografamos,
penso que é um bom exercício experimentar entregar um pouquinho de algo
que sempre tomamos, a imagem dos outros.

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