Nesse mundo de incertezas, até as nossas certezas  precisam passar por uma  reciclagem  de tempo em tempo.

  Recentemente fotografei o ensaio da peça teatral "Invisível" , da Cia Foz de Teatro, e, depois, a estréia. Confesso que achei que seria mais fácil,  pois já conhecia todo o mis-en scéne,  ou pelo menos pensei que conhecesse. Porém,  me deparei com algumas surpresas.

  Para começar, no ensaio, além do elenco, tinha apenas eu e mais umas três  pessoas. Na peça, tinham centenas de olhares cravados nas atrizes. Imagino que cada um tem um jeito de encarar o público. Alguns escolhem uma  pessoa  na platéia e olham só para ela até o final, a menos que  ela tenha  um mal súbito.  Já, outros, preferem se comunicar visualmente com todos de uma vez, no estilo olhar para todos e não olhar para ninguém. Ou, ir deslocando o olhar para cada um de cada vez. . Porém, independente da forma que escolhemos para interagir e sobreviver, seja  em que palco for, a certeza é que as coisas mudam o tempo todo.  

  No ensaio, eu podia me locomover como quisesse. Na estréia, nenhum assento  vago. Cheguei atrasada e não pude reservar lugar estratégico. Fiquei  agachada em um limitado espaço por quase uma  hora, para não atrapalhar a visão da platéia. Um  conhecido até elogiou a minha resistência física. Mas, com   minha mania de ler tudo nas entrelinhas,  interpretei que  ele estivesse querendo dizer – “você está muito bem para quem passou dos 40”. No clima da fantasia, ouvi até uma risada virtual.

  Já faz algum tempo que aprendi que a fotografia é sempre o que passou. Cada instante que fotografamos morre , e seu fragmento é  transferido para a bidimensionalidade  de um suporte qualquer para ser visto depois, se assim o quisermos. Cada instante que vivemos, morre, podendo ficar limitadamente na nossa memória, até o completo esquecimento. Não é por acaso que a arte imita a vida, ainda que o seu contrário também possa acontecer, dependendo do nosso anseio de transformação.

  Poderemos fazer quantas cópias quisermos de uma fotografia, mas o instante original é único. Poderemos fazer mil cópias de um filme, porém tudo será rigorosamente igual em cada cópia.
No  teatro, o momento continua sendo único, pois assim é o tempo, é a vida. A diferença, como arte,  é que não se pode reproduzi-lo, assim como fazemos com a fotografia. Ainda que, fantasia, não se pode tirá-lo da realidade e transferi-lo para o papel. Um  fragmento seria irrisório para representá-lo na sua integridade. Pois está ancorado em uma realidade que inclui tudo: palco, cenário, atores, público, som, luz e texto. E não se pode apartá-los. Portanto, deve ser vivido no aqui e agora.

  Mas, o que  buscamos ao representar, seja em qual arte for? A vida, por suposto! Ainda que falemos da morte é a vida que queremos  deter, refazer, sublinhar,  mexer.  Numa   tentativa de disfarçar a  certeza de nossa impermanência. Salve. Salve-me!

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